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QUITANDEIRAS

Atualizado: 23 de jan.

Quando se pensa nas quitandeiras ou nas assim também chamadas negras minas que percorriam os centros das cidades e vilas do Brasil nos séculos XVIII e XIX - aquelas mulheres negras carregando sobre a cabeça alimentos e quitutes em seus tabuleiros - é comum imaginá-las como personagens por certo um lado romantizadas, numa cena cotidiana do nosso país dos períodos colonial e imperial.


No entanto, transitar por ruas, becos e vielas vendendo alimentos no espaço público era uma prática ressignificada de uma tradição legada às mulheres em especial nas regiões centrais e da costa oeste do continente africano. 


A atividade de “ganhadeiras” era natural às negras traficadas, como destaca a pesquisadora Juliana Bonomo, pois, nas sociedades africanas, as tarefas de subsistência doméstica e circulação de gêneros eram delegadas às mulheres.


Numa grande extensão da costa da África, o pequeno comércio era tarefa feminina e lhes garantia papéis econômicos importantes.


Também atravessou o atlântico nos tumbeiros (nome que se dava aos navios negreiros) a palavra e o conceito “quitanda” – kitânda (com a letra k) no dialeto quimbundo de Angola, dialeto este que plantou raízes na cultura brasileira. 


A “quitanda significa aquelas coisas que as negras levavam nos tabuleiros para expor as mercadorias que tinham. Normalmente gêneros alimentícios tais como aguardente, bolos, leite, broas, biscoitos e fumos” (refere Juliana Bonomo). 


Assim, a realidade social encontrada no Brasil estimulou a volta de antigos conhecimentos permitindo a interação necessária para lidar com as relações sociais no novo mundo. 


As quitandeiras tornaram-se figuras necessárias numa configuração social de desenvolvimento urbano em que uma multidão de pobres, escravizados, forros e outros ganharam as ruas das cidades rompendo com a prática de se alimentar no espaço doméstico. 


Tal situação tornou o ato de fornecer alimentos de maneira ambulante no espaço público uma atividade econômica necessária e importante. 


Esse comércio, que era visto nos centros urbanos do país, foi relatado como existente em Porto Alegre, no ano de 1821, pelo naturalista e botânico francês Auguste Saint-Hilaire. 


“É na Rua da Praia, próximo ao cais, que fica o mercado. Nele vendem-se laranjas, amendoim, carne seca, molhos de lenha e de hortaliças, principalmente couve. Como no Rio de Janeiro, os vendedores são negros,” - registrou o botânico.


O cronista Achylles Porto Alegre descreve o périplo das quitandeiras pelas ruas e espaços da capital gaúcha e a venda de alimentos também na porta de suas casas.


Essas trabalhadoras eram chamadas pelo cronista de quitandeiras negras mina. O termo mina - para Eliana Xavier e Gláucia Fontoura - era utilizado pelo colonizador para denominar grandes áreas africanas de tráfico de escravos, como Angola, Congo, Benguela, entre outras, e acabou sendo incorporado pelos brasileiros como autodesignação de um certo grupo de negros. 


Muito importante é destacar que cerca de 70% dessas mulheres - as quitandeiras - conseguiram juntar pecúlio suficiente para abandonar a situação de escravizadas e garantir sua sobrevivência e a de sua família.


Outras atividades a que essas mulheres se entregavam quando podiam era o trabalho de lavadeiras, engomadeiras e, em especial para o imaginário popular de longa duração no tempo, também às funções de curandeiras, feiticeiras e vendedoras de ervanários. 


A presença dessas mulheres no cenário urbano da capital demarcaram lugares importantes para o sentimento de territorialidade negra, como é o caso do Largo da Quitanda (a hoje popular Praça da Alfândega) e nas bordas da Colônia Africana (no Parque da Redenção).


A memória da quitanda continua viva e marcante, por exemplo, no maior monumento negro do Centro Histórico – o Mercado Público – que para os babalaorixás e yalorixás guarda em seus quatro portais de entrada a presença de floras que cristalizam a prática de venda de ervanários, uma marca de todas as entradas daquele prédio significativo para a memória negra em Porto Alegre.


Referências:



  • PORTO ALEGRE, Achilles. História Popular de Porto Alegre. Porto Alegre: PMPA – Unidade Editorial, 1994.


  • SAINT-HILLAIRE, Auguste de. A Viagem ao Rio Grande do Sul: 1820-1821. São Paulo: Cia Editora Nacional, 1939.


  • VARGAS, Pedro Rubens N. Ferreira. A relação patrimonial na restauração de bens culturais: o mercado de Porto Alegre e os caminhos invisíveis do negro. Curitiba: Appris, 2017.


  • VIEIRA, Daniele Machado. Territórios Negros em Porto Alegre (1800-1970). São Paulo: Hucitec, 2021.


XAVIER, Eliana Costa e FONTOURA, Maria Dias. O sentido de trabalho para as mulheres negras. (PDF) Negras Minas: o sentido do trabalho para as mulheres negras. Disponível em: 03/04/2025

Vozes e Olhares – Memórias Negras para Todos

Recurso de acessibilidade do projeto:


O Projeto Memórias Negras valoriza a inclusão e aplica medidas de acessibilidade para que seus conteúdos em vídeo possam ser apreciados por todos. Para o público surdo, são oferecidas legendas, garantindo a compreensão das falas, sons e contextos.


Para pessoas cegas, há o recurso da leitura do verbete em áudio, que descreve imagens, expressões e cenários, permitindo acompanhar a narrativa em sua plenitude.


Ao adotar essas práticas, o Projeto reafirma seu compromisso com a democratização do acesso à informação, à memória e à cultura negra. Mais do que cumprir uma exigência técnica, trata-se de reconhecer a diversidade e assegurar que cada pessoa possa vivenciar e se identificar com as histórias contadas.

Texto e pesquisa

Pedro Vargas



Vozes:

Vitor Ortiz

Regius Brandão

Juliana Bittencourt


Imagens desenvolvidas por IA por falta de acervo


Trilha sonora:

Banda Kalunga



Edição de áudio, vídeo e legendagem:

Juliana Bittencourt



Projeto:

Memórias Negras em Vebetes



Realização:

Voz Cultural



Apoio:

Sindbancários



Financiamento:

PróCultura; Governo do Estado do RS, Secretaria da Cultural; Lei Paulo Gustavo; Ministério da Cultura, Governo Federal Brasil, União e Reconstrução;



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3 comentários

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Convidado:
22 de jun.

rophim hôm trước mình thấy mấy đứa bạn share hoài nên tò mò vào nghía thử. Mình không kiểu ngồi chấm điểm nội dung đâu, chủ yếu xem trải nghiệm có dễ chịu không. Vào cái là trang hiện phim ra khá nhanh, không bị mấy lớp hiệu ứng che màn hình hay bắt đợi lâu nên lướt thấy nhẹ đầu. Bố cục nhìn gọn, mấy khối phim xếp rõ ràng nên mình tìm đúng thể loại muốn xem cũng không phải mò mẫm nhiều. Mình thử mở trên điện thoại nữa thì vẫn ổn, kéo xuống với bấm chuyển mục không bị khựng. Thấy có ghi kiểu phim HD 4K nên nhìn chung phần hiển thị thông tin phim…

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Convidado:
15 de jun.

kèo nhà cái 55 mình thấy bạn bè nhắc hoài nên tiện tay mở thử xem giao diện ra sao. Mình không đọc kỹ nội dung hay ngồi phân tích gì đâu, chỉ lướt vài phút cho biết cách họ bày trang thôi. Ấn tượng đầu là nhìn khá dễ chịu, không bị dồn chữ kín màn hình, khoảng trống vừa đủ nên mắt đỡ mệt. Mấy phần thông tin được chia thành từng khối rõ ràng, kiểu nhìn cái là biết đang nói về gì, không phải kéo qua kéo lại để tìm. Mình cũng thích cách họ để menu khá dễ thấy, bấm qua lại giữa các mục nhanh, không bị lạc. Nói chung trải nghiệm lướt ổn,…

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Convidado:
16 de out. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Parabéns prof. Pedro, exclente texto.

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